quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

" Pai"

 





 

Alguém bate à porta...

 

De repente, a alegria da ceia de Natal é substituída pelo silêncio. O pai se levanta para ver quem é. A família sempre foi isolada. 

 

A mãe sorri ao ver a polícia adentrar pela casa. Pedia em pensamento ao Papai Noel, por anos, que salvasse sua família. Na verdade, foi sequestrada com os filhos pequenos e teve que fingir que aquele estranho era seu esposo e pai de seus filhos.

 

As crianças o adoravam, já a mãe, consideravam-na chata e agressiva. Levaram muito tempo para assimilar o que de fato acontecera e de se aproximarem da mãe. Mas, continuaram a ter um afeto pelo "pai".

 

 Ainda tinham lembranças das datas festivas, inclusive, dos natais, quando ele se fantasiava de Papai Noel e lhes davam os melhores presentes. Não podiam acreditar que era tudo mentira. 

 

Visitavam-no em datas especiais, escondidos da mãe.

 

Ela nunca o perdoou.

 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Sumiço na véspera de natal




Antônio tinha passado a noite na casa de um amigo, quando retornou, teve a triste surpresa do sumiço do cachorro Golias. Quem deu a notícia, rapidamente, foi sua mãe, que estava mais preocupada com os preparativos natalinos.

Antônio achou estranho e foi procurar o cão. Era inusitado, Golias fugir por aí. Nunca saía de perto da casa e nem do menino, eram amigos inseparáveis. Começou a perguntar pela vizinhança se alguém viu Golias e ninguém tinha notícia. Um bêbado sem rumo, conhecido no bairro, aproximou-se. Comentou que viu a mãe do garoto na direção do descampado, segurando uma trouxa de lençol.

No início, Antônio não deu importância, mas, um pensamento o martelava. Resolveu checar. Encontrou uma cruz fincada no chão e a terra parecia que foi mexida recentemente. Respirou fundo e começou a cavar com as mãos. O bêbado se aproximou com a pá e o ajudou. Algo parecido com Golias estava lá. Antônio sabia que era seu cachorro, porém, a impressão que tinha, era de estranhamento. O bêbedo lhe disse que quando a alma se esvaía do corpo, transformava-se em algo sem sentido.

Antônio voltou para casa com Golias no colo. Alguns parentes haviam chegado e levaram um susto com a cena. A mãe aos prantos disse ter sido acidente. Ela acordou bem cedo para fazer as compras, entrou no carro e quando saiu da garagem, teve a sensação do automóvel passar em cima de algo. Ouviu um ganido, em seguida, silêncio. Desesperada, para não estragar o natal e nem deixar o filho triste, elaborou o plano de fuga do cachorro. Já tinha a desculpa montada e compraria outro cão, para o filho se distrair.

O episódio trágico em pleno dia de natal tornou-se uma revelação para Antônio.  Foi a primeira vez que percebeu que sua mãe não era perfeita. Além, do inédito contato com a morte de “alguém” querido.  Também, não se pode esquecer, da descoberta de que se precisa sempre levar em consideração qualquer pessoa. Quem se solidarizou e o ajudou a desvendar o mistério do desaparecimento de Golias, foi um mendigo vadio.



domingo, 8 de dezembro de 2019

QUERIDO DIÁRIO...



Resolvi fazê-lo porque estou desesperada com minha vida caótica. Então, tento colocar minhas ideias em ordem e me entender como indivíduo. Sigo o conselho do meu saudoso psicanalista, que foi hipnotizado pela minha mãe-bruxa-secular para ser escravo sexual. Coitado, para se livrar dela, jogou-se de um viaduto.  .

Bem, meu amigo, minha família é repleta de criaturas mágicas. Meu pai é um vampiro que sempre matou meus namorados e ele tem um hábito horrível de roubar minhas roupas. Quer ser eu e isso o angustia. Por isso, qualquer homem que se aproxima de mim, meu pai o deseja e o mata. Além do mais, pedi minha mãe a lançar um feitiço para proteger meu armário. Estava ficando sem roupa.

Meu irmão é um lobisomem e meio alienígena. Como já disse, mamãe é uma bruxa ninfomaníaca. Ela aprisiona todas as espécies de machos para serem servos sexuais. O mano é um cara bacana, mas quando fica bravo, mata povoados inteiros.

Sou a única normal da família e triste por não ter nenhum amigo ou namorado. Fugi de casa e uma comunidade religiosa me acolheu. Eles me consideram muito especial e até faço parte do coro da igreja.

O guia espiritual me disse que preciso perdoar. Então, resolvi passar o natal com minha família, já que é uma época de solidariedade e perdão.

Só não levarei meu noivo por precaução. Será que estou sendo rancorosa, meu querido diário? Desejo tanto desnudar minha alma e perdoar minha família!!! 

***
Ah, meu amigo, quero lhe mostrar um poema antigo que escrevi e que minha professora de literatura me falou que era muito profundo e intenso. Coitada, ela foi assassinada pelo meu irmão, porque não quis ficar com ele.

Sou menina travessa
Mas, quando quero sou mulher sensual
Porém, posso ser fera faminta
Logo, menina- travessa-mulher-sensual-fera-faminta

E  aí? Será que sou uma poetisa, querido diário?

Feliz natal para você, também.




24 de dezembro...





Um homem caminha na noite quente de verão. Está sozinho. 

Um senhor o chama para entrar em um casarão de esquina.


- Como vai?


- Indo.


- Anda por aí sozinho... Não tem medo de ser assaltado.


- Assaltam um morto?


- Hoje em dia são capazes de tudo. Acredito que nem sabem diferenciar os mortos dos vivos.


- E você está vivo ou morto? 


- Não sei ao certo, há momentos que me sinto vivo e outros, morto. Venha comer, a mesa está posta.


***


- Coisas deliciosas. Os sabores me lembram de quando era alguém.


- Comigo acontece o mesmo. Antigamente, esta casa vivia cheia de gente.


- Quem é você? O que quer de mim?


- Sou o que sinto e não quero nada de você, só sua companhia.


- É tão difícil acreditar, pois sempre alguém quis algo de mim.


- Mas, não quero nada. Coma... Veja tevê....


- Quero tomar um banho.


- Sim. Dou-lhe roupa limpa.


- Não precisa.


- Não tenha medo de aceitar. 


***

A água fresca percorre seu corpo suado e empoeirado. Não pensou mais, entrou no terreno dos sentidos. Se tivesse que pagar um preço caro por esse intervalo, não iria reclamar.

***

- Quer dormir?
- Como?
- Tem um quarto sobrando.
- Não sei.
- Não tenha medo.
- Está bem.

***
O sol invadiu seus olhos. Encontrou ao seu lado, uma mochila de roupas e um dinheiro no bolso da frente.

Foi embora atônito, pois não sabia o que fazer. Nunca experimentou tanta generosidade. Sentiu-se num conto surreal.



domingo, 23 de dezembro de 2018

"Neuza vem amanhã e dará um jeito nele."




Foi tudo tão estranho que nem sei se  vou  reproduzir  os  fatos fielmente.   
Nesse dia, o calor era insuportável.  Todo mundo tomava  banha  de  mangueira  para  se  refugiar.   Tinha a sensação de que minha mente iria se dissolver.   Um cheiro  de  fossa  pairava  no  recinto.  No calor tudo apodrece rapidamente e era insuportável o  cheiro  de  suor, mesmo  disfarçado  com  desodorantes e  perfumes.  O céu azul e  sem nuvens  tornava-se uma maldição.
Ao anoitecer, a ceia estava  preparada  e  o ar-condicionado ligado.   Era um oásis para gente.
Todavia, quando a noite avançava,  o aroma de putrefação  invadia  o ambiente.  Não adiantava fugir da realidade.  De súbito, ratos, baratas, moscas  e formigas  dominaram   a  casa  por um  átimo  de   segundo,  devorando qualquer  coisa  que  vissem. 
As lembranças desse dia ainda estão vivas em mim. Consigo ver nitidamente as criaturas nojentas comendo a ceia em cima da mesa, depois, avançando em todo mundo e os gritos. 
Consegui sair da casa  e  corri  o mais rápido  que  pude.  O mundo que eu conhecia era outro.   Vi ondas de criaturas repugnantes transformando a  cidade em  ruínas  e  o cheiro  de podridão  cada vez mais forte.    
De repente,  meu corpo virou  uma pequena  montanha  de   bosta.

***
- Pronto, já contei  uma história  de  terror natalino.  Pra  cama,  já!
- Não tive medo,  ela  não  valeu.
-  Estou  sem inspiração.
-   Pois é, uma  história super  boba.
-  Vai  dormir  logo.
-  Tá... Espera!   Sinto  um cheiro  esquisito  e  vi algo  passar  rapidamente  pela  porta. 
-   Realmente,   que  cheiro fedido é este?
-  Tem um rato  enorme  na árvore  de Natal!
-  Que  nojento! 
-  Precisa  matá-lo.
- Acho melhor a gente se  trancar  no quarto  e  ligar o ar.   Neuza vem amanhã e dará um jeito  nele.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

INVISÍVEL







Sentia-se assim, já que todos o esbarravam na rua. Vivia tão calado que nem se lembrava de sua voz.  Com o tempo, adquiriu o hábito de seguir e a observar as pessoas. O vazio que sentia, diminuía  brevemente. Nas festas de finais de ano, começou a entrar de penetra nos lugares, para se alimentar das alegrias dos outros. 
Em certo natal,  entrou numa casa e, como  sempre,  ninguém  o  percebeu.   Explorou a casa, até encontrar  uma menina  que lhe  sorriu.  Pegou em sua mão e o  levou  ao quarto.  Seu corpo estremeceu, há tempos que ninguém o tocava. Tentou lembrar-se de  alguma lembrança remota, mas, só havia uma tela em branco.
Ela mostrou os brinquedos novos e não parava de conversar.  De repente, alguém a chamou.  Minutos depois, ela voltou com sua mãe para apresentar o novo amigo. A mãe  pensou que  se  tratava de  um novo amigo imaginário. Mandou a garota brincar com os primos e fechou  a janela  escancarada do quarto  para não entrar  insetos. 
Ele correu com o coração quase saindo pela boca. Sentia felicidade e medo ao mesmo tempo,      por se  visível  por segundos. Perguntava-se como agiria  se todos voltassem a vê-lo, acostumara-se a não ser visto.  Um  grupo de  homens e mulheres  passou por  ele e lhe desejaram  um  feliz natal.  

Retribuiu e, quando ouviu sua voz, um  onda  de  alegria o  arrebatou.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

TODOS REUNIDOS( Conto antigo e revisitado)



Mesa posta com grandiosidade.

Um pai de família suborna um guarda de transito, não quer ser punido.

Cálices nas mãos, brindam felizes.

Um filho leva a namorada a clinica de aborto, para escapar do castigo dos pais e não perder o presente de natal: uma viaje para Austrália.

Abraçaram-se à meia-noite.

Uma mãe despede a empregada porque pensou que ela havia roubado uma joia sua, mas na realidade foi o filho que roubou, para pagar o aborto da namorada. Quando soube a verdade, nem se deu o trabalho de pedir desculpas à empregada e manteve a demissão por justa causa.

Fazem brincadeiras em volta da árvore de natal e abrem os presentes.

Uma filha está sozinha todas as tardes em sua casa. Lazer predileto é tomar um pote de sorvete com vodca e depois vai ao banheiro vomitar, para não engordar. Pela  janela do  lado de fora,  um solitário observa a  confraternização familiar:  

“ Que família perfeita...”.